sábado, 16 de janeiro de 2016

A maior parte

É difícil resistir à distância. É difícil resistir ao tempo. É mais fácil ser levado, ir com o fluxo. Mas para onde vai? Se você não sabe aonde quer chegar, esta questão não é importante, pois é possível chegar em qualquer lugar. Mas e quando você começa a saber? E quando você começa a querer? Então você percebe como fazer seu próprio caminho pode ser difícil, como constantemente haverá quem ou o que lhe tire do seu rumo.

Não é um sentimento feliz. Não é bom se sentir perdido. Acredito que o medo maior de toda criança seja se perder e quando a gente se perde a gente se sente criança - deve ser por isso. Não é um sentimento feliz, depois, saber onde se está e perceber como se está longe. Longe do pouso, de casa, de onde se queria chegar, de rota, de vida... Mas é um ponto. É importante. E há de ser bom, mesmo havendo alguma tristeza.

Eu entendi que talvez eu seja para sempre criança. Só com mais aparência de adulto, fazendo coisas de adulto, falando com outros adultos... E, por dentro, criança. Eu me conheci e me perdoei por isso. Agradeço sempre que encontro com quem eu posso ser criança, posso ser quem eu sou. Pois é difícil ser criança e ter que parecer adulto. Terei de viver assim. Talvez um dia eu realmente cresça e seja de fato adulto.

Eu entendo que eu serei para sempre sozinho. Com algumas solidões compartilhadas, tendo boa sorte. Fazendo coisas com outros sozinhos. Eu me conheci e me entristeci por isso. Pelo menos eu me contentei também, por vezes. Agradeço sempre quando eu encontro com que eu posso ser sozinho sem me sentir tão triste. Terei de morrer assim. Espero um dia me reintegrar ao todo, ao uno e voltar a ser inteiramente.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Essa abstinência, uma hora, vai passar

Em breve eu não terei mais que me pôr à prova. Eu não terei mais que passar por estas ruas e ficar imaginando se verei você em uma delas, já que você mora por aqui. Apesar de não ser você a razão do meu deslocamento, mas você fez e faz parte disso e há um alívio no afastamento. Um alívio que é igual ao encerramento de um conflito. Não é felicidade - eu não tive o que eu queria e provavelmente não terei, mas também não terei mais de ficar encarando a possibilidade já que não haverá mais qualquer possibilidade. É um término. E de novo eu morri mais um pouco.

Você é ondulante, eu sou retilínea; você é desprendido, eu sou fincada; você é solto, eu sou contida. Você certamente se cansou das minhas restrições e eu me cansei de me sentir testada. Eu tentei te deixar livre e não te cobrar nada, mas quis definições. E no final ficou tudo sem forma e eu não sei mesmo o que eu estava fazendo. Expus minha confusão como último recurso, na esperança de que você se revelaria e me receberia, me aceitaria. Você me deixou sem resposta, porque não houve nem sim nem não. Então, eu forcei o não, negando as proximidades, negando o que não fosse como eu queria ouvir, negando a mim, me excluindo, me afastando, acreditando que ser prática - e cortante - resolveria. Mas eu continuo me sentindo no vazio da ausência de respostas, no vazio da sua ausência. No fim das contas, no meu vazio. Você quis tanto que eu abrisse portas para você e depois você não quis entrar, não quis ficar. E eu, sem ter para onde ir, fiquei só no vazio.

Mas cada vez haverá menos coisas para me lembrar de você. E se há um futuro para nós, certamente não está nas minhas mãos para que eu pudesse moldá-lo, para que eu pudesse traçá-lo. Talvez seja algo que me molde, que me trace. Eu ainda não estou calma como deveria. Mas eu sei que tudo passa e que isto será do mesmo modo. Talvez mais rápido do que eu imagino e um dia eu ainda vou rir disso tudo, por eu ter sido tão ridícula.

Penso nos sonhos que tive com você e me pergunto se são algo além da minha própria mente, como se pudessem ser o prenúncio de uma realidade. Ainda não sei. Mas por que você me per-seguiria sem querer ser visto? Por que me per-seguiria para manter uma distância segura? Não falaria comigo? E eu ficaria sem saber porque você não vem; resolvendo meus perrengues insistentemente porque eu tenho que seguir em frente, o que quer que aconteça, como quer que eu me sinta. Febre intermitente.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Thoughtful

(Esta deverá ser a última vela que acendo para você. E depois disto, talvez eu vele meus sentimentos durante a noite.)

Amar as pessoas não é fácil. Fácil é ser falso e superficial. Mas se você quer algo de verdade, se você está disposto a dar a cara à tapa (e também a bater), então as coisas se complicam um pouco porque você vai precisar de muito perdão, muita tolerância, muita paciência e continuar acreditando que vale a pena.

Eu posso ter esperanças de um futuro que eu não sei se virá. Por enquanto eu ainda tenho. Talvez eu morra disto, talvez eu viva disto, talvez um dia passe e como marcas de pés na areia da praia será só uma questão de tempo até que uma onda venha e apague tudo. Você sabe que ali tem muita história. Nada a ser visto, só a ser contado, se alguém ainda lembrar. Porque só o que ficará sempre é o mar - toda onda passa.

Me pergunto se você pensa em mim, se talvez alguma coisa lembre, traga à memória algo sobre mim, mesmo que seja muito mais algo que você imaginou sobre mim do que eu. Ficaria feliz de saber que você me imagina. Ficaria feliz de encontrar você por acaso na rua - mesmo com a certeza de que eu não estou pronta para isso, que eu tremeria na base e tentaria a todo custo não demonstrar. Mas a mínima demonstração de carinho sua me faria baixar a guarda.

Eu me afastei, me recolhi. Eu precisava de espaço para sofrer. Às vezes é difícil sofrer em meio ao burburinho. Às vezes é preciso sofrer sozinho. Eu preciso me transformar, entrar no casulo e aceitar o risco de me tornar tão outra que talvez seja irreconhecível para os olhos rasos. (Talvez seja irreconhecível mesmo para você que não me vê mais, mas que me enxergou melhor que muita gente.)

O que precisa ficar, ficará. O que precisa ir, já está livre. Seja eu espaço de existência para todas as manifestações porque isto é ser artista e é o que eu quero ser.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A Quem de Mim

Às vezes é difícil manter a postura dos ombros erguidos e alinhados.

Com o peso do fracasso nas costas...

Um pouquinho de tristeza. Mais um pouquinho de esperança de que as coisas vão melhorar. Eu estou buscando meu caminho e vou encontrá-lo. Certo que tive - e terei ainda - de retroceder mais um pouco. Porque eu estive no caminho errado. Eu quis garantir o que não se pode garantir e me matei um pouco em prol de uma vida que não é vida de verdade. Porque a vida não é só matéria. E eu custei para entender/relembrar isso.

Existem tantas coisas em mim para dar.

Retornar dá um pouco desta sensação de derrota, de atraso, de ter perdido a corrida, mas não se pode simplesmente perder. É necessário voltar e fazer de novo. E, desta vez, fazer o caminho certo. O que já era para ter sido feito. É claro que existem vários caminhos possíveis. Mas não é qualquer caminho o meu caminho. E a questão não é bem ganhar, pois não estou competindo. Quem poderá trilhar meu caminho a não ser eu?

Existem tantas coisas em mim para encontrar.

Eu sei que também tem os encontros que eu preciso ter. A minha vida é arte. Tem que ser.
Eu sei que eu também serei encontrada.

Porque nem tudo está perdido: sempre existe o caminho.

Eu preciso me recolher um pouco a mim e silenciar estas outras vozes de fora. Eu preciso escutar a minha voz. E então aprender o que eu já sei.

O tempo vai me trazer tudo que eu tenho que ter. Eu buscarei primeiro O Reino de Deus/ A Consciência de Krishna/ A Iluminação Perene.

Esta "coisa" que eu sou para além de todas as coisas e para além de quem eu sou nesta vida.


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Jogando xadrez com o amanhã (e usando a metáfora de outro)

Eu sou só um peão na mão de Deus. Deus faz o que quer comigo no Seu jogo. É assim que me sinto. Foi pra isto que me pôs aqui, Deus? Não para jogar, mas para ser jogada? O que eu realmente escolho?

Eu sei, eu tenho me tornado insuportável com as "minhas verdades". Eu sei que isto tem um custo. Eu sei que eu serei deixada pra trás. Mas eu ainda brigo por sonhos. E ainda prefiro ter relações honestas, que sejam poucas, do que ter vários divertimentos momentâneos e supérfluos. Sim, eu estou querendo compromisso. Mesmo sabendo que sou inapta, que tenho um coração confuso, uma mente obscura e uma alma quebrada.

Agora estou sozinha. Talvez seja assim por toda a vida. Quem irá amar uma pessoa fria e egoísta como eu? Que iria amar já sabendo que vai receber menos de volta? Porque eu não sei me dar. Com toda a minha honestidade insuportável, eu não sei me dar. Mas eu estou aqui, me despindo, mostrando as marcas. Quem irá amar uma pessoa feia? Eu não quero misericórdia nem piedade. Eu quero compaixão, se for possível.

Metaforicamente, eu sou aquela pessoa diante de um precipício, prestes a saltar. Mas eu ainda estou encarando o vazio, eu ainda não decidi. Eu não preciso de alguém que me tire da frente do precipício, ou que me impeça de saltar. Eu apenas quero alguém que fique ao meu lado, de coração, de verdade, enquanto eu decido. Talvez alguém para dizer adeus quando eu finalmente saltar. Talvez alguém para compartilhar a vista. Talvez alguém para sair comigo quando eu finalmente decidir voltar, pois não será ainda desta vez.

Eu vi você quando estava triste e isto me cativou. Eu bem queria que agora que eu estou triste você me visse também. Certamente foi a falta o que nos aproximou, quando não tivemos mais amores preciosos. Apenas a minha falta seria temporária. Mas eu descobri que tudo será diferente, mesmo que pra mim haja algum retorno. Logo eu descobri que tudo está mudado, ainda que alguma coisa tentasse me esconder ou se esconder de mim.

O que o futuro reserva será talvez o que eu não previ. Mas não importa porque eu não tenho como saber e eu talvez nem ao menos decida. O jogo já está perdido ou ganho. Eu só ainda não sei. Eu sou um peão parado, esperando a minha jogada, que não é minha, pois eu sou só um peão e não sou realmente eu Quem faz o jogo.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Quando e Então

E o que se faz com tanto amor? Eu me pergunto porque eu não sei o que acontecerá comigo quando você não estiver aqui para eu amar.
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Recentemente eu tive novamente uma experiência que já estava praticamente esquecida para mim: a de me sentir um com a existência. Eu estava dentro do ônibus, em meio a uma chuva torrencial, cercada por água em todos os lados que podia ver e a água era como ondas do mar, batendo contra o ônibus que se movia lentamente. Eu não conseguia fazer mais nada a não ser admirar toda aquela água e toda aquela chuva e como tudo aquilo preenchia o mundo naquele momento; o mundo que eu via da janela do ônibus. Eu via que a água era inevitável e não tive qualquer medo de ficar ilhada, de ficar na rua, de ficar no escuro, de cair uma árvore. Eu tinha certeza de que eu estava exatamente onde eu deveria estar - e não há nada neste mundo (este que é mais do que o que eu via pela janela do ônibus) maior que esta certeza. E eu comecei a cantar, quase que inconscientemente. Sem me importar se eu perturbava as outras pessoas porque naquele momento todos éramos um. Aquelas pessoas eram eu e eu era aquelas pessoas. Eu era o ônibus, eu era as pessoas, eu era a rua, eu era a chuva e tudo isto também era eu. E soube que a morte e a preocupação da morte não têm sentido se tudo é existência e tudo é um. Pois na verdade, sempre fui e sempre serei. E que esta coisa que chamo de consciência é coisa muito pequena, é quase um acessório, é apenas um passatempo. Porque a minha real existência é esta existência integrada na qual eu não sou só eu e sou muito mais que um "eu". Pois este "eu" é apenas uma manifestação na existência, assim como outras coisas das quais se tem um contorno. E perdi a noção de tempo, pois tudo era tão plenamente que eu não vi o tempo. Ou tudo aquilo era tempo, a maior realidade do tempo, que é esta sensação de infinito ou de coisa que nunca começou e que nunca terminará porque é. Porque estes "foi" e "será" e outros tempos são ilusões nossas sobre o tempo por causa da tal consciência.

Então, em algum momento eu senti muita dor no estômago porque eu já estava há horas sem beber água. Daí estas noções todas de tempo e de consciência voltaram à força, pois nada como a corporeidade - coisa que sempre me pareceu absurda - para trazer de volta um ego, um senso de si, uma preocupação consigo, uma preocupação com o outro, porque aí o outro vira o outro, afinal o corpo lhe fez ser novamente "um", indivíduo, separado. Porque a dor é "dentro" e vemos no dentro a coisa mais tornadora de alguém como indivíduo; este dentro, sempre incompartilhável, sempre motivo de nos fazer uma membrana que envolve um dentro e fazer desta membrana uma preocupação dos limites entre o dentro e o fora para que as coisas não se misturem e este dentro esteja com sua segurança garantida. Porque é muito importante garantir nossas dores, claro. Porque nos identificamos como o "dentro". Logo a chuva me preocupava, o tempo que ia ficar ali, as pessoas também me olhavam porque devia ter cantado muito alto e incomodei, me incomodava o estômago, a roupa meio molhada e o frio, os pés gelados... enfim, muitas coisas.
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Eu encontrei você e me pergunto sobre o amor. Perguntei sobre o amor quando você me amou e eu amei você. Como era isso, de alguém fazer parte de você e você se sentir parte de alguém. Como era isso de sentir dor na ausência e dor até na presença, da ausência antecipada. Como era isso de ter medo de perder, mas reconhecer que não é seu e não há o que perder. Pergunto agora sobre o amor porque você não estará aqui por um bom tempo. Como será isso de ficar sem você. Como será isso de ficar sozinha, dormir sozinha, não ter alguém para me amar como eu sou de verdade. Como será isso de não ter alguém com quem eu posso ser criança, posso ser frágil e posso cuidar também. O que é isso de amar alguém que não estará aqui para eu amar. O que é isso de ser amada por alguém que não estará aqui para me amar. E o medo do vazio. O desespero de ter de preencher meu tempo com muitas coisas para não sentir, porque eu não quero sentir. É mais uma dor, mas será a pior de todas. As outras eu posso suportar. Essa eu não sei. Não sei o que é me seprar de alguém que está vivo. Todos de quem me separei ou morreram de fato ou eu matei em mim. Mas eu não mataria você em mim. Eu quero te amar ainda. Como é isso de o amor ficar só comigo. Amor não foi feito para se guardar. Não. Quem falou isso? Amor foi feito para se jorrar, se cobrir, se doar, se abrir, se espalhar. e o que eu faço com esse amor? Eu não sei.

Eu só sei que espero. Desde já eu espero você de volta. Eu espero que você ainda queira voltar, quando voltar.

sábado, 8 de novembro de 2014

Explicação

Andei pensando e comecei a achar que é tudo culpa minha. Então pensei ainda mais, ou pelo menos tentei construir um bom processo de pensares, e percebi o que eu não queria achar de modo algum: que eu talvez não tenha esta consciência toda, que há mais inconsciência em mim do que eu poderia prever. Minha tendência depressiva que veio de não sei onde. Não acreditar nas coisas, não acreditar em mim. Ter tanto medo. Medo de errar, medo de andar só por seguir o meu caminho, medo do meu corpo e dos mistérios do meu corpo. Coisa estranha é ter um corpo e acho isso até hoje, meu Deus. Me pergunto quando eu me acostumaria com ter um corpo. E é culpa minha que eu seja assim. Que muitas vezes eu não saiba lidar com a felicidade nem com a tristeza alheias por também não saber lidar com minhas alternâncias. Que quando vejo algo nos outros que eu não tenho eu fico triste. Por que me pergunto: Por que eu não consegui? Por que parece mais fácil para os outros? O que faz com que os outros consigam e eu não? Não consigo achar que seja merecimento, mas tenho dificuldade de acreditar na sorte, ou mesmo na benção. Por mais que eu deseje. Eu tenho medo porque acho que não vou conseguir ser nem metade do que eu quero ser, nem um quarto do que eu quereria ser. Também penso do que me cabe querer ser qualquer coisa se já sou simplesmente por estar existindo e tanto faz o que isto seja enquanto se continua existindo porque isto é iminente partida para se deixar de existir. E virá o tempo, virá a velhice, a maior e cabal insuficiência do corpo, da mente, as mortes dos outros, as mortes em si, e finalmente a morte de si para os outros. E qual significado teve tudo isto se tudo isto se perde em significado? Tudo isto se perde continuamente porque se esvai, se vai, se vaza, se verte, se vira, se verruga... Resvala. O que se ganha também não fica. E se memória for argumento para alguém se salvar nesta vida de não se perder de si, me parece que seria necessário sempre ter memória da memória, estendendo as memórias infinitamente num cérebro finito. Ou talvez mais simples: vamos admitir que memória tem muita coisa de ficção e somos histórias contadas - por quem (?). Como alguém pode ser simplesmente uma história contada por quem. E como quem pode fazer de alguém uma história. Dessas que não se lembra o começo porque se começa no meio do caminho, e que o final não termina nada além de a última página e o fechar-se do livro. Ninguém há de entender estes meus desesperos e despreparos. Estas coisas, as que consegui dizer aqui, são o que me faz ter sensação de que ainda sou uma criança diante do mundo, sempre sem saber nada por mais que eu aprenda, sempre tendo que enfrentar os maiores e não podendo coisas simplesmente por ser criança, sempre perdendo muito tempo brincando como se não fosse haver mais nada, ou perdendo muito tempo dentro do próprio mundo como se não houvesse o lá fora. E tudo isto me parece minha indefinição ou reflexo dela. Porque é difícil para mim assumir coisas. Aliás, compromisso com as coisas. E não só "responsabilidade" (que sempre tive). Difícil escolher uma carreira para a vida. Fico perdida entre as opções e não concluo. Difícil escolher um amor para a vida. Mantenho um amor maior mais perto, mas continuo desejando outros amores e não quero ter que escolher, ter que abrir-mão. Difícil escolher. Difícil fechar. Por isso também hesito em iniciar para ser mais uma coisa que ficou pelo caminho, como as dívidas que tenho: da camisa que não fiz, aliás, que fiz e perdi e sei lá para onde foi; da pulseira, do colar, do anel; do que me deram e não liguei; de passear com você pela orla desde a Glória até o finalzinho de Botafogo; de uma porca e de uma figa; da visita que ia e irei e iria lhe fazer 'n'algum tempo; até do que não fiz, mas assumi por desgosto como a toalha manchada e a blusa larga; e etc. Todas estas coisas dispostas na minha frente. Na verdade, estão mais para desfilando diante de mim, bailando em escárnio e irreverência, lembrando de minhas incapacidades e de minhas vergonhas não declaradas. Pois tenho vergonha de quase tudo que não consigo fazer. Gostaria de ter perdão, mesmo que não pedí-lo por me doer muito pedir perdão quando eu mesma acho que não mereço. Das minhas fantasias que não abordo por não querer sofrer rejeição, então eu mesma as rejeito antes que possa eu ser a rejeitada. Daí não falo que queria seu corpo de novo. Não seu afeto, nem sua atenção. Só o seu e o meu corpo em uma conjunção. Por mais que você viesse a achar que sou mulher e por isso sou uma bobinha que confunde sexo com amor. Sou mais que ser mulher e nem toda mulher é assim, você deveria saber. Também não digo ao outro: "acho você lindo porque você é meio bobo e meio criança, mesmo sendo mais bem ajustado ao mundo adulto que eu; gosto de pensar que você me olha, mas não consigo negar que você não me vê, assim como eu não realmente sei quem você é, apenas suponho". E mais ao outro que me adivinha: "nenhum de nós quer cobranças ou vícios, ainda que sejamos diferentes e sabemos o que nos separa; por isso mesmo é que podemos ficar juntos por algumas horas, sem expectativas de repetição ou de ser isso ou aquilo e nos satisfazermos no que der". E ao meu amor de agora de muito tempo: que te amo ainda que ame outros e não saberia lhe deixar, não vejo como. Entenda ou não entenda. Saber de mim que vou ficar velha e tive só prazeres momentâneos e sofrimentos eternos, que minha vida foi isto. Falo como se já fosse velha e prestes a me encerrar ou ser encerrada. Mas já está bom de solilóquios e perturbações. E se meu verso não deu certo, foi o seu olho que entortou.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Achado


Você não me conhece. Não sabe que às vezes choro sem qualquer razão aparente. Mas ninguém precisa de razão aparente para chorar. A razão pode estar bem dentro, bem dentro. Ou pode ser só uma coisa irracional mesmo, que alguns chamarão de doença, ou acharão motivo de preocupação. A verdade é que todo mundo é irracional pelo menos uma vez.

Estou me esforçando para soltar o que preciso deixar correr. Algumas coisas são mais difíceis. Desde cedo, nosso primeiro reflexo é agarrar. Depois, aprendemos sobre nosso poder de destruição, largando coisas. Mas ainda preferimos ter e em certa fase adoramos dizer "meu".

Percebi logo que não existe coisa que seja realmente minha. E acho que foi aí que comecei a buscar por genuinidade, por algo que fosse realmente meu. Porque mereci, porque conquistei, ou porque fui agraciada. Reconheço que minha noção de graça quase sempre incluiu algum mérito. Acho que eu ainda não entendi realmente o que seja esta coisa chamada "graça".

Por muito tempo eu lutei para ter algo que fosse meu e só vi o meu fracasso. Coisas que ganhei e amei que se foram. Coisas pelas quais me esforcei tanto e assisti definharem, com sua partida meus esforços pareceram medíocres. E eu ainda brigo. Talvez pelo hábito. Talvez porque mesmo que eu tenha aprendido, isto não garante minha perfeição. Dizem que quando a gente aprende verdadeiramente, a gente não erra de novo. Eu acho que a gente erra porque erra - esquece coisas, tem esperanças vãs, deseja que algo seja magicamente diferente, enfim...

Eu sei que não há nada que seja meu, nem que possa um dia ser, contudo, para cuidar de alguma coisa, estimar um pouquinho que seja, preciso acreditar ao menos em alguns momentos que esta coisa é de algum modo minha. Talvez burrice minha, porque não aprendi. Só que aprendi porque sei. Mesmo assim ainda erro. Eu não estou imune.

Só sei que saber não me garante nada. Muitas vezes não saber é vantagem. A curiosidade pode ter matado o gato. Nem por isso eu morrerei tão cedo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mãos previstas

A esta hora eu já deveria estar dormindo, mas as preocupações me consomem. Tanto que começaram a roer meu estômago; tive que parar e comer alguma coisa. Penso que isto, de minha parte, escrever sobre isto, é como uma repetição e não pretendo fazer deste blog meu relato de insônias, noites mal dormidas, noites não dormidas. É só que todas as coisas me afetam, principalmente as referentes a minha fisiologia, ao meu corpo, a quem eu sou e o que faço. Emfim, tudo.

Pensei até em tornar este blog público. Não que ele não seja. É acessível a qualquer um, mas não é conhecido. Talvez fique melhor dito que pensei até em publicar este blog, ou publicar sobre este blog. Para movimentar um pouco, haver alguma troca (maior), desentedear. Não sei.

Eu não realmente tenho sobre o que escrever agora. Nem ao menos uma metáfora para o meu fato de não ter conseguido dormir, por não conseguir descansar a cabeça por mais cansado que o corpo esteja. Como se não fossem a mesma coisa... Nenhuma poesia em cima deste sofrimento. Não "sofrimento" num sentido dramático, mas no sentido de algo que se sofre porque se está passível de sofrer. Algo que vem de fora para dentro - e chega dentro, por isto perturba. É mais uma reclamação porque não dormi e estou cansada.  Seria quase o de sempre se eu fizesse algum floreio, ou se espontaneamente a condição presente, comum em outros tempos, me inspirasse a transformar o sofrimento em beleza de texto.

Não sei se considerar minhas futuras horas até o sol nascer como cochilo aliviará mais o sofrimento que ficar a noite em claro até ser claro o dia. Realmente não vejo melhor forma de ter escrito esta frase do que assim, pois pensei tudo junto. Acho que darei uma chance ao cochilo, ao menos. Se eu deitar e ele vier, eu o aceito. Que caia sobre mim. Se eu deitar e ele não vier, talvez eu fique deitada só pelo prazer. Talvez, não. Talvez eu arranje o que fazer.

Eu vou é tomar um chá. Chá é uma coisa que eu deveria tomar mais vezes. Geralmente me acalma a pressa. Pode ser porque é necessário esperar ficar pronto e não há outro jeito. Nisto há uma conformidade satisfatória quando finalmente se toma o chá.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

É só mistério, não tem segredo


Quem disse que o sono vem fácil? Ontem foi um dia, hoje já é outro. Quem disse que as coisas vão seguir mais ou menos um mesmo fluxo? Não. O ritmo muda bruscamente e os caminhos possíveis se esquivam. As mesmas coisas que vieram fáceis outrora, agora podem ser as mais difíceis. As mesmas coisas que outrora pareciam quase impossíveis, agora chegam a ser comuns.

Encontro-me novamente diante desse aberto que não sei onde vai dar. Sei dos vários caminhos por onde ir, mas não sei qual escolho, por não conhecer a todos e por não conhecer bem os que conheço. E depois de cada primeiro passo só encontro neblina. Os caminhos seguem anuviados tal como a minha cabeça.

Espero por alguma orientação, converso com os mais experientes, com os anteriores a mim. Às vezes penso que ninguém sabe mesmo nada. As pessoas têm sorte, adivinharam certo, erraram certo. De fato só sabem como chegaram onde chegaram depois de terem conseguido ou falhado. Aí, sim, as coisas fazem sentido. Senão, antes disso, é tudo só aberto - e no puro espaço não deve haver sentido nenhum...

Quando eu era criança não me preocupava em não saber de certas coisas. Pensava que era assim mesmo, que com o tempo a gente ia aprendendo e que lá para os vinte, antes dos trinta, a gente já ia saber quase tudo que há para se saber sobre  a vida, e no resto do tempo que nos fosse concedido, confirmaríamos a maioria das coisas e descobriríamos ainda uma ou outra, inerente à nossa jornada. Agora penso que ainda não sei e não sei tantas coisas, mas não consigo mais ter a despreocupação. Pergunto-me se realmente será possível aprender com o tempo ou se nem assim, pois me parece que certas coisas - coisas estas tão fundamentais prara mim - são e serão sempre mistério absoluto.

Como farei eu, em meio a tantas dúvidas, para viver bem? Não repouso, tanto que afetou meu sono, nesta questão. Provavelmente volto a ela como volto à ansiedade dos problemas que pesam sobre a cabeça quando os ombros já não mais a sustentam, quando os ossos afrouxam para o corpo receber o sono. E viver bem não é só viver bem para mim, mas no meu viver cabe o bem do mundo, o bem dos que amo, o bem da vida e minha parte nesta enorme trama que desconheço. Viver bem é qualitativo, quantitativo, ético, estético e transcendental.

Cadê aquela voz que tem dentro da gente? Acho que a minha deve estar adormecida, enquanto eu peno e perduro nas horas desperta.